A história de Alma e a Tempestade se passa em uma cidade litorânea que poderia estar no sudeste do Brasil. Nesse pequeno microcosmo, dançam algumas das muitas influências sobre a pessoa que eu sou, e as histórias que posso contar. Falando um pouco de mim, embora eu tenha crescido em uma cidade industrial, assim como Alma, eu sempre tive a Mata Atlântica como meu quintal. Minha infância não foi campestre ou citadina: acima de tudo, minha infância foi silvestre. Existe um prazer em correr no meio das árvores e das samambaias, mergulhar na água gelada que brota na serra, modelar objetos na argila que você mesmo recolheu, ouvir o som da mata e deitar quietinha no chão coberto de folhas para deixar os vaga-lumes pousarem em você. Não existem palavras que expliquem a sensação de estar cercada pelo musgo que cobre o granito da Serra do Mar.
Foi assim que Santa Estela surgiu. Como uma colagem de memórias, minhas e de outros, desses pedaços de chão que envolvidos pela Serra, fazem da gente quem a gente é.
Santa Estela
Santa Estela foi fundada na época da colônia. O centro da cidade ainda conserva as construções de taipa e pedra dessa época, com suas paredes grossas pintadas de branco com molduras de cores vivas e janelas compridas, calçadas estreitas e calçamento de pedra irregular.
Esse é o núcleo original da cidade. O Mercado dos Pescadores, o prédio da prefeitura - antiga Câmara e Cadeia - , a igreja da padroeira, a escola que um dia pertenceu aos jesuítas. Os comércios, as pousadas, a casa de cultura, ocupam o antigo casario, as antigas casas pertencentes antes às famílias com mais posses, os descendentes dos portugueses da vila original, com seus quarteirões organizados e suas ruas de nomes antigos: Rua da Fonte, Viela do Fogo, Rua do Comércio, Rua do Recreio, Beco da Escola. Os adolescentes de Santa Estela chamam o centro velho de "cidade dos turistas", apesar de também passarem muito tempo ali, com a escola, a lan-house, o mercadinho do seu Bernardo e a praça - e nisso acabou quase tudo que se tem para fazer ali. A pousada mais antiga da cidade é a Casa dos Doze, um casarão que pertenceu aos donos do Engenho Caído. Dizem que na noite antes do Dia de Finados, ainda se pode ver a procissão das almas passando pela Rua do Recreio e indo até a igreja de Santa Estela. Pontes de pedra em arco cruzam oito vezes por cima do rio São Miguel, que corta parte da cidade velha.
Depois do Mercado, se estica a vila dos pescadores. Ali, mesmo as casas mais novas são feitas de taipa e caiadas de branco, indistinguíveis das construções mais antigas em um primeiro olhar - você percebe a idade das casas quando vê as chaminés dos fogões a lenha. As ruas de areia e terra, os quintais separados por cercas de taquara, com suas hortas e seus varais, abrigam geração após geração de pescadores caiçaras. É a parte da cidade mais próxima da praia, do pier dos pescadores, das canoas e das redes. Hoje em dia, um galpão de telhado de zinco abriga a cooperativa de artesãs, onde as mulheres tecem redes e rendas, trançam cestos, costuram bordados, e os velhos esculpem a madeira balsa em forma de brinquedos, barquinhos e canoas. Ali as crianças aprendem essas artes para que não se percam. Tia Luiza é a alma da cooperativa, e quem a vê andando por ali, não imagina que foi só aos vinte e poucos anos de idade que chegou na cidade.
Logo ali a serra quase toca o mar. E as trilhas do Parque levam para cantinhos agradáveis da mata, cachoeiras e ruínas escondidas pelas árvores. A capelinha de São Miguel está ali, no topo de um morrinho, assim como o que restou da Casa da Velha, cheia de histórias que ninguém sabe bem se são verdade. Você pode subir a trilha da Pedra Partida para chegar na ponta da serra que está mais para dentro do mar, onde pode enxergar a meia lua que a cidade forma, cercada pela serra, a estrada velha e a estrada nova (que já não é mais nova desde os anos 60), e a outra ponta da serra do lado oposto da baía. Faz parte do Parque o Engenho Caído, a fazenda de cana de açúcar que em uma noite de tempestade séculos atrás foi arrastada, coberta pela lama do rio Pauerê, que mudou de lugar e levou embora na enxurrada tudo que estava no caminho. Até hoje o alarme as vezes soa porque o rio, raso e manso, enche de repente em uma cabeça d'água que leva tudo que encontrar para alto mar. Ninguém diz o nome que o Engenho Caído tinha antes de virar ruína - dizem que dá má sorte falar disso. O Engenho Novo fica um pouco mais distante, enfiado na serra. Foi um engenho de fogo morto muito tempo, mas agora, com o turismo, voltaram a fabricar cachaça e açúcar, mesmo que muito pouco perto do que era antes.
Mas do lado oposto da Baía de São Miguel, ou Baía do Arcanjo, como o povo costuma dizer, uma estrada de terra sobe para a outra ponta da serra. Lá estão o bairro mais antigo e o mais novo da cidade. Quilombo Velho, isolado de quase tudo, com suas casinhas redondas, suas roças de milho e mandioca, dividido entre a pobreza extrema e o orgulho de sua herança ancestral, mais antigo do que a vila, e até hoje difícil de chegar, e Serrinha, com suas casas escondidas pelas árvores, uma comunidade alternativa de artesãos, artistas e gente da cidade que procurava uma vida mais sossegada. Serrinha tem algumas casas que são alugadas para temporada, e uma escadaria que leva para uma praia isolada, com uma fonte e uma caverna fechada por correntes - dizem que na caverna, mora um Encantado.
Seguindo depois de Serrinha, estão as ruínas do Forte, que não era muito mais do que uma muralha com dois canhões em seus melhores dias, e que hoje foi quase tomada de volta por completo pela mata. No pé da serra, o terreiro de seu Benedito benzedor, apesar de grande, está quase escondido das vistas de quem não sabe o que procurar, perto da Cachoeira Grande. Quando a maré está baixa, dá para andar com água nos tornozelos até a Pedra da Sereia, centenas de metros para dentro do mar, mas é preciso voltar antes que a maré vire, porque a pedra é assombrada e dizem que quem passa a noite na cabana batida pela água que está ali não volta para contar o que viu.
Essa é Santa Estela. Poderia ser qualquer cidadezinha litorânea, cheia de histórias, tentando sobreviver neste século, depois de quase desaparecer muitas vezes, dividida entre o turismo e a tradição, com gente igual a gente de todo lugar - e por isso mesmo, gente única que você nunca verá desse jeito em outro lugar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário